por: Felipe Sarrafo

O circo em minha vida:
Um circo passou lá em casa e conquistou meu espaço! Minha vida virou asa e então virei Palhaço!

No ano de 2002 chegou na cidade o “Circo do Marcos Frota”, foi um dos últimos que se instalou naquele terreno no bairro do Boa Vista que durante muitos e muitos anos foi praça para diversos circos e parques de diversão.

 

Cresci acompanhando montagens e desmontagens, todo ano chegavam trazendo a apoteose da milenar e tradicional arte circense, circos brasileiros e estrangeiros passavam por ali. Minha primeira experiência de trabalho com o universo da arte circense foi aos doze anos de idade, em 1994, ao ver a enorme estrutura do “Circo do México” começar a chegar eu e alguns amigos fomos até os trabalhadores encarregados pela montagem da lona oferecer trabalho.

Nos indicaram um senhor, conhecido como Peruano, ele era responsável por recrutar trabalhadores locais para diversas funções. Para minha alegria fui selecionado para vender refrigerantes durante a temporada naquela praça.

 

Fui tão bem que durante a temporada fui promovido a vendedor do trailer de cachorro quente. Foi uma experiência inesquecível, pude ver a estrutura do circo por outro olhar, os bastidores. Naquela época ainda eram permitidos animais nas apresentações, o grande número era as Elefantes Bailarinas. Enquanto expectador achava lindo, paquidermes enormes dançando graciosamente e executando grandes manobras. Esse encanto logo acabou, certo dia os elefantes se recusaram a realizar o número durante a apresentação. Quando o espetáculo acabou o treinador os trouxe para o picadeiro e bateu nos animais, deu choques, chicotadas, algo bastante desagradável e triste de se ver.

 

Em 45 dias de trabalho fui conhecendo a rotina daquelas famílias circenses. As vezes chegava mais cedo para ver seus ensaios e treinamentos e foi assim que nasceu meu interesse pelo malabarismo. Aprendi a jogar três bolinhas observando o malabarista do Circo do México, sujeito bem alto, magro, e muito engraçado. Me lembro de achar ele mais engraçado que o Palhaço, talvez fosse um novo tipo de Palhaço.

 

Em 2002 voltei ao circo, agora o do Marcos Frota, tinha assistido a apresentação e fiquei impressionado com a técnica do equilibrista, ele executava um número com xícaras em cima do monociclo. Meu interesse era conversar com ele para tentar aprender as técnicas e complementar um estudo que havia iniciado na faculdade de Educação Física que pretendia pesquisar a importância do malabarismo no desenvolvimento motor. Os seguranças não me deixaram entrar, ao ir embora cruzei na rua com um senhor e pensei, esse cara tem cara de circense! Abordei! E não é que estava certo?! Ele me convidou para conhecer as instalações do circo, me convidou para assistir o ensaio de outro equilibrista que estava dirigindo o número de sua filha no rola rola.

 

Foi uma experiência muito enriquecedora, o equilibrista me contou histórias da sua família, falou sobre técnicas de equilíbrio, causos e mais causos da vida na estrada. Acabei não conhecendo o monociclista, pois ele não estava no circo naquela tarde, ou não quis me receber, jamais saberei. O senhor que me recebeu me levou até a saída e ao me despedir perguntei o que ele fazia no circo, ele sorriu e respondeu: eu sou o malabarista! A partir daquele dia comecei a acompanhar os treinamentos dele e de sua família e pude aprender diversas técnicas de ensino do malabarismo.

 

O circo se foi, mas reacendeu a minha paixão pelo malabarismo. A partir dali comecei a treinar exaustivamente, as vezes 12 horas por dia. Estava cursando o último ano da faculdade de Educação Física e comecei a trabalhar com eventos, fui estagiário da SMEL (Secretaria Municipal de Esporte e Lazer) e durante esse período resolvi me aventurar como malabarista. Para melhorar minhas performances fui atrás de um curso de teatro oferecido pela Fundação Cultural de Curitiba que tinha uma sede na Rua da Cidadania do Boa Vista onde eu estagiava. Me encantei pelo teatro, aquelas técnicas me encorajaram a experimentar a arte da atuação.

 

Uma vez por mês a SMEL realizava um evento chamado “Dia Especial para Brincar”, a proposta era reunir em um mesmo espaço crianças especiais e não especiais da rede municipal de ensino. Eu estagiava no setor de esportes, porém a diretora responsável pelo Lazer gostava da minha proposta de trabalho e solicitava ao diretor do setor esporte a minha presença. O trabalho era ser monitor de brinquedos, como cama elástica, piscina de bolinhas entre outros. Mas eu ofereci a SMEL uma nova proposta, um artista malabarista circulando pelo evento. Foi um sucesso!

 

Além da minha presença como artista, se apresentava no evento um outro artista que fui conhecer anos mais tarde, o Palhaço Piri. Ele já era muito experiente e tinha sacadas muito geniais na hora de interagir com as crianças. Apesar de não me interessar pela estética de figurinos e maquiagem daquele Palhaço, ele me inspirou bastante.

 

Me formei em Educação Física e continuei fazendo teatro. Quando o curso acabou o professor me disse: você tem muito talento! Vai fazer comédia!
Segui seu conselho e fui!

 

Em 2003, integrantes de um grupo de teatro chamado Sonho e Magia se mudaram para o condomínio onde eu morava. A arte nos aproximou. E depois de um tempo surgiu o convite de montarmos um espetáculo para crianças que estreou no Fringe do Festival de Teatro de Curitiba, no ano de 2004.
Foi a primeira montagem de uma peça inteira que participei. Uma experiência muito divertida.

 

Durante uma blits de divulgação no Largo da Ordem um sujeito baixinho, magro, de óculos, se aproximou e disse que era Palhaço e nos convidou para assistir seu espetáculo com sua parceira. Era Rafael Barreiros, o Palhaço Alipio. O espetáculo que ele nos convidou para assistir chamava-se na época: “O Circo de Alipio e Sombrinha”, anos mais tarde passou a se chamar “Circo S/A”.

 

Lembro que não me interessei muito pela divulgação dele, sinceramente tive até um certo preconceito, pensei que aquele sujeito não tinha perfil de Palhaço, não achava que um sujeito com cara de nerd seria engraçado.
Meu irmão, Henri Francis, que fazia parte do elenco, desprovido de preconceitos foi assisti-los e me contou que eram muito divertidos. Disse que eram Palhaços diferentes de tudo que ele já tinha visto.

 

Meses depois pude conhece-los melhor, e descobrir que havia em nossa cidade vários artistas circenses, havia um movimento crescente da arte circense fora do circo, impulsionada por malabaristas e artistas de rua.

Rafael organizou um encontro semanal onde pretendia-se pesquisar a arte da Palhaçaria, toda quarta feira nos reuníamos no salão de festas do seu prédio e ele conduzia exercícios teatrais, de improvisação, jogos, e dinâmicas. Fui entendendo que o universo do Palhaço ia muito além do que eu imaginava. Existiam várias formas de fazer, interpretar, brincar e experimentar a Palhacaria.

 

Naquele mesmo ano dia 23 de novembro de 2004 realizamos um evento chamado: Em companhia de Palhaços. Um Sarau, inspirado no Sarau do Charles que acontecia em São Paulo. Após esse evento fundamos a Cia dos Palhaços e lá se vão 16 anos.